O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil encontram em Cléber Ribeiro, o Teixeirinha de Òṣàlà, um dos seus maiores baluartes. Com 57 anos dedicados ao tambor, Teixeirinha é uma enciclopédia viva de fundamentos, histórias e batidas que ajudaram a moldar a prática religiosa no Rio Grande do Sul. Sua trajetória, iniciada na infância por necessidade de cura, confunde-se com a própria história do Batuque gaúcho.
O despertar no som do tambor
A relação de Teixeirinha com o sagrado começou aos 6 meses de idade, através de um processo de cura conduzido pela Mãe Esmeralda. Aos 7 anos, o menino já sentia o chamado do tambor, observando fascinado os grandes tocadores da época. O que começou como uma brincadeira doméstica — batendo em móveis e utensílios — tornou-se, sob a tutela rigorosa de mestres como Adão Manchinha, um ofício de vida.
“Antes de ser babalorixá, antes de ser qualquer coisa, eu sou tamboreiro. O tambor para mim representa tudo: fé, alegria e ancestralidade.”
Para ele, a formação do tamboreiro era um rito de passagem severo. Ele relembra os tempos em que a aprendizagem exigia disciplina física e o respeito absoluto aos mais velhos, um contraste com a realidade atual onde, segundo ele, muitos segredos e fundamentos se perdem na velocidade e na busca por um protagonismo apressado.
Responsabilidade e Credibilidade
Teixeirinha de Òṣàlà enfatiza que o tamboreiro é, depois do pai ou mãe de santo, a figura mais importante em uma obrigação. Essa relevância, contudo, traz uma responsabilidade imensa: o tamboreiro precisa ser o mantenedor não apenas do toque, mas do próprio cântico e da energia do rito.
Ele critica a “cacofonia” e a aceleração excessiva que observa em muitos batuques contemporâneos, alertando que o desrespeito à cadência tradicional impede que os Orixás mais antigos se manifestem. Para ele, o tambor é um ser vivo, sagrado, e a forma como é conduzido reflete o estado da própria comunidade-terreiro.
Um chamado à tradição
O Bàbálòrìṣà finaliza a entrevista com um apelo à juventude: a importância do estudo sério e da dedicação. Ele defende que o aprendizado deve ser feito com humildade e sob a orientação de mestres que realmente conheçam a tradição. O tambor, para Teixeirinha, não é “axé de miséria” — como dizia a crença popular —, mas um fator de fartura, amizade e vida.
A entrevista é um convite a refletir sobre a importância de honrar os mestres e os fundamentos. Teixeirinha de Òṣàlà é um exemplo de que, mesmo com as transformações dos tempos, a essência do Batuque reside no respeito profundo ao toque, ao orixá e ao legado que recebemos e temos o dever de transmitir.
