O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil encontram, nesta edição, um território onde a tradição é cultivada não apenas com devoção, mas como ato de sobrevivência histórica. Visitamos Ìyá Neli de Ọya Tola, Ìyá Eneida de Òṣàlà e Rosa de Bará, guardiãs do Reino de Ọya e Juremita, em Rio Grande, para uma conversa que atravessa gerações e reafirma o papel do tambor como alicerce da identidade e da resistência preta.
Tradição que atravessa gerações
Para o Reino de Ọya e Juremita, o terreiro é um espaço onde o tempo parece não ter linearidade — o passado dos ancestrais convive com o presente das crianças que, desde cedo, já aprendem o ritmo nos “baldes e bacias”. A trajetória de suas lideranças é marcada por uma infância vivida entre os grandes precursores do Batuque em Rio Grande, como o Vô João e a Mãe Albertina, cujas lições de humildade e respeito aos fundamentos continuam a ser o norte da casa.
As entrevistadas compartilham a importância de manter a cadência tradicional, resistindo à “aceleração” dos toques que, segundo elas, por vezes desrespeita a dinâmica das escalas e a própria dança dos Orixás:
“O tambor é que te leva a mensagem… O tambor é que te diz qual é a escala. A gente, aqui, continua na ancestralidade, no ritmo, na cadência.”
O protagonismo da mulher e a resistência preta
Um dos pontos centrais da entrevista é a afirmação das mulheres como tamboreiras. Enfrentando preconceitos e a resistência de um meio muitas vezes masculino, elas defendem que o toque feminino traz uma suavidade e um respeito que são fundamentais para o equilíbrio do rito.
“Mulheres, toquem tambor! Não vão na conversa de que mulher não pode. Mulher pode tudo… Emparelhem com os homens, sigam o legado de luta e resistência.”
Além disso, a conversa aborda a faculdade como um desafio superado, a importância do artesanato como registro histórico e o papel do Ilê como um refúgio acolhedor para todas as formas de existência, incluindo a comunidade LGBTQIA+.
Conservar é zelar
O Reino de Ọya e Juremita nos lembra que “conservar não é mudar, é cuidar do que tem”. Em um mundo que clama por modernização a qualquer custo, elas nos convidam a zelar pelos fundamentos, pelas bancadas, pelas cortinas e pelos toques que nos foram deixados. Esta entrevista é, portanto, um manifesto sobre a importância de manter viva a memória — aquela que não se deixa invisibilizar, mas que se fortalece em cada toque do tambor.
