O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil ganham voz com Ìyálórìṣa Iza de Ògún. Tamboreira de longa trajetória, Iza é um nome incontornável quando se fala da preservação dos fundamentos do Batuque no Rio Grande do Sul. Com mais de cinco décadas dedicadas ao tambor, ela nos convida a revisitar um tempo em que o batuqueiro era, acima de tudo, um servidor do sagrado, guiado pelo “ouvir” e pela entrega genuína.
A escola da vida: O tambor como aprendizado
Para Iza de Ògún, o tambor nunca foi apenas um objeto de som; foi sua maior escola. Sem aulas formais, sua formação ocorreu na prática, no chão do terreiro, observando os grandes baluartes que a antecederam. Ela relembra com vividez sua infância em Santa Maria, onde, ainda menina, sentava-se ao lado de tamboreiros como Antônio Carlos Xangô para absorver os axés e as batidas que, hoje, ela guarda em sua memória como em um computador.
Ao longo da entrevista, Iza reflete sobre as mudanças drásticas que presenciou na condução do rito:
“Hoje a gente sabe que não é assim… hoje é, na verdade, um negócio. Antigamente, [o tamboreiro] era um dom sério.”
A Ìyálórìṣa aponta para a importância da humildade e da atenção plena do tamboreiro — “o segundo olho do terreiro” — na condução das obrigações, enfatizando que o cuidado com o tambor, a afinação e a compreensão da liturgia são elementos inegociáveis para a manutenção da espiritualidade.
Legado e Resistência
Mãe Iza discute a diversidade das nações, desmistificando divisões e lembrando que, apesar das particularidades rituais, o Batuque do RS é um corpo coletivo. Sua trajetória, que atravessa Porto Alegre, Uruguaiana e Argentina, é um testemunho da capacidade de adaptação e da força das mulheres que ocuparam — e ocupam — o posto de tamboreira, enfrentando preconceitos e consolidando seu espaço pela excelência e pelo conhecimento.
Hoje, seu legado vive na juventude que ela continua a formar. Ao transmitir seu saber, Iza de Ògún reafirma que o tambor é, antes de tudo, um instrumento de acolhimento e de resistência para o povo preto:
“Eu acredito que aquele que vai tocar tambor, ele vai aprender; ele não vai por outro caminho, porque os próprios orixás vão levar ele para um caminho bom.”
Esta entrevista é um registro histórico inestimável. Através dos relatos de Iza de Ògún, acessamos a memória de um tempo de simplicidade e rigor litúrgico, e somos provocados a pensar sobre o futuro dos fundamentos afro-brasileiros em nossas casas de culto.
