O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil encontra, nesta edição, um sopro de renovação e continuidade. Recebemos os Ọgá, Alágbe e Onílù do Ilé Àṣẹ Yemọnja Omí Olódò para uma conversa que revela o tambor como o coração pulsante da comunidade. Para estes jovens instrumentistas, o tambor não é apenas um instrumento de percussão, mas a própria identidade e o alicerce que sustenta sua existência no mundo.
Entre baldes, cadernos e mestres
A trajetória deste grupo é um testemunho da vivência intrínseca que só o terreiro proporciona. Desde a infância, brincando com baldes e bacias nos fundos da casa, até o momento da consagração e o recebimento do aché de tambor, o grupo narra um aprendizado construído através da observação atenta e da escuta dos mais velhos. O “caderno de rezas” — relíquia guardada até hoje — é o símbolo de uma época em que o aprender era um ato coletivo, de erros, acertos e muita insistência sob o olhar paciente do Babadiba.
“Quando eu toco, a cada batida que dou no tambor, sinto que o meu coração está junto ali. A minha alma está ali. E a cada batida, vejo a alegria dos Orixás, dos Caboclos, dos Pretos Velhos…”
O Tambor como identidade e resistência
Para os integrantes do Ilé Àṣẹ Yemọnja Omí Olódò, o tambor é a ponte entre o Orum e o Ayé. A discussão técnica sobre as batidas cede espaço à reflexão profunda sobre o que significa ser uma pessoa preta e batuqueira hoje. O tambor é entendido como um valor civilizatório, um pilar que garante que a “roda não pare de girar”. Eles destacam que a cadência correta é o que permite a manifestação do sagrado na sua plenitude, defendendo que o tambor deve sempre respeitar o tempo e a natureza de cada Orixá.
Legado para o futuro
Esta entrevista é um retrato da gratidão e do respeito à hierarquia. Os jovens Alágbe deixam claro que não se concebem sem a ligação com o tambor. Para eles, a musicalidade de terreiro é o que lhes confere sentido, é o que lhes dá contorno enquanto sujeitos. A mensagem que deixam para a juventude é de compromisso: aproximar-se dos mais velhos, buscar o conhecimento com humildade e, acima de tudo, entender que ser um guardião do tambor é uma missão de vida.
O Ilé Àṣẹ Yemọnja Omí Olódò nos prova que o futuro do Batuque está em mãos que souberam, desde cedo, aprender a ouvir e a respeitar o silêncio e o toque. O tambor está salvo, pois o coração da comunidade continua a pulsar forte.
