O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil.

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Bába Diba de Iyemonjá

Nosso primeiro entrevistado é Babalorixá no Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô e idealizador do projeto "ILÙ BÀTÀ - O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil".

Os registros do projeto iniciam em um momento profundamente simbólico: no chão do terreiro, durante o recolhimento ritual de Baba Diba de Yemọnjá, em obrigação religiosa, e nas celebrações dos 42 anos de Mãe Iyemọnjá. É desse útero mítico ancestral, como espaço de silêncio, recolhimento, transformação e renascimento, que começam a emergir as primeiras imagens, conversas e memórias tecidas do Ilú Batá.

Tudo se inicia nesse território sagrado chamado Ilê Àṣẹ Iyemọnjá Omi Olodô, uma casa centenária de Batuque da Nação Jeje, que também abriga práticas de Umbanda e Quimbanda, constituindo-se historicamente como espaço de resistência negra, espiritualidade, acolhimento, formação comunitária e produção de conhecimento.

As raízes da comunidade remontam ao início do século XX, quando Maria Júlia Lara de Vasconcelos chega a Porto Alegre, vinda da cidade de Itaqui/RS, trazendo consigo os conhecimentos da umbanda. Estabelecendo-se no bairro Partenon, em um antigo tambo de leite, funda ali seu primeiro terreiro. Anos depois conhece o Babalaorixá Oluwá Alcebíades de Ṣàngó, da Nação Oyó, iniciando-se como filha de Iyemọnjá e transformando o espaço em um Ilê Àṣẹ.

Mais tarde, sua filha Maria Erotilde Lara de Vasconcelos, conhecida como Mana de Iansã, também ingressaria no culto aos òrìṣà após um episódio marcante vivido ainda muito jovem. Com a morte de Alcebíades, ambas passam aos cuidados do Babalaorixá José Aírton Vasconcelos de Sobo, o conhecido Zé da Saia, importante referência da Nação Jeje no Rio Grande do Sul.

A ancestralidade da casa segue atravessando gerações até chegar a Baba Diba de Iyemọnjá, iniciado em 1980 por Edília de Ṣàngó Agodô, figura central na continuidade do Ilê. Em 1985, Baba Diba traz seus òrìṣà para a casa e dá continuidade ao legado ancestral de Iyemọnjá, consolidando o terreiro como importante referência religiosa, cultural e comunitária em Porto Alegre.

Ao longo do tempo, a comunidade tornou-se muito mais do que um espaço litúrgico. O Ilê consolidou-se como território pedagógico, político, cultural, filosófico e de promoção de saúde comunitária. Um espaço onde espiritualidade e cotidiano caminham juntos; onde crianças aprendem valores civilizatórios afro-brasileiros através da convivência; onde jovens encontram pertencimento, acolhimento e formação; onde a ancestralidade dialoga com a luta antirracista e com a construção coletiva de cidadania.

A primeira entrevista do projeto acontece com Baba Diba de Iyemọnjá, liderança da comunidade-terreiro. Em sua fala, Baba Diba compartilha reflexões sobre a importância da preservação dos toques do Batuque do RS, ressaltando que o cuidado com o Ori Inú começa ainda na infância, na forma como as crianças observam, escutam e convivem dentro do terreiro.

Ele fala sobre memória como responsabilidade coletiva. Sobre o tambor como ferramenta de continuidade ancestral. Sobre a importância do diálogo intergeracional para a manutenção dos valores civilizatórios afro-brasileiros.

E talvez tenha sido justamente isso que o projeto testemunhou naquele momento.

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