O registro e a memória ancestral da musicalidade nos terreiros do Sul do Brasil encontra em Pingo Borel de Ògún uma reflexão profunda sobre o que significa não apenas tocar, mas ser tambor. Filho de um dos maiores baluartes do Batuque gaúcho, o saudoso Mestre Borel, Pingo compartilha sua vivência de uma vida inteira de intimidade com o sagrado, onde o instrumento não é um objeto externo, mas uma extensão do próprio corpo e da própria alma.
Uma existência em cadência
Para Pingo, o tambor nunca foi algo que se “aprendeu”, no sentido didático moderno da palavra. Ele é o resultado de uma imersão natural e cotidiana: o som do tambor foi sua música de ninar e sua maior referência. Sua fala é um chamado à desconstrução da superficialidade com que, muitas vezes, o instrumento é tratado nos dias de hoje.
“Eu não aprendi a ser filho do Borel. Eu era filho do Borel. Eu não aprendi a tocar tambor. Eu sou uma extensão do tambor.”
Ao relatar os ensinamentos do pai, Pingo descreve um mestre que, para além da hierarquia religiosa, era o seu melhor amigo e mentor, alguém que ensinou a importância do “filtro” na transmissão do conhecimento. Para Pingo, ensinar é um ato de responsabilidade, uma filtragem necessária para que o conhecimento seja, de fato, aprofundado, e não apenas um “entulho” de informações.
O Tambor como elemento de resistência
O papel do tamboreiro, na visão de Pingo, transcende a função ritual. O tambor é a chave que dá acesso a um conhecimento milenar e uma ferramenta poderosa de manipulação de energias. Ele faz uma crítica incisiva à mercantilização do cargo e à perda da cadência tradicional, onde o desejo de exibição e a “decoreba” técnica substituem o sentir, a escuta e a vivência de chão de terreiro.
Como educador social, Pingo Borel vê no tambor um elemento de transformação da realidade de jovens periféricos. Ele reafirma que a música de matriz africana é uma linguagem que une todos os pretos, independentemente das nações rituais, pois é o toque que nos identifica e nos mantém unidos através dos séculos.
Conservar é zelar pela vida
A entrevista com Pingo Borel é uma aula de conduta. Ao explicar por que não deixa o seu tambor de pé — uma relação de respeito profundo com o seu próprio ori —, ele nos ensina que a postura do tamboreiro é tão importante quanto a sua técnica. O tambor exige respeito, cuidado e, acima de tudo, o reconhecimento de que, ao tocar, estamos lidando com vidas, com histórias e com uma linhagem que nos precede e nos constitui.
Pingo nos convida a sair do “fazer” para o “ser”. Afinal, como ele mesmo pontua, o que os antigos nos deixaram não foi apenas uma técnica, mas uma filosofia de vida que sobrevive em cada batida, em cada reza e em cada gesto de quem compreende a profundidade do tambor que carrega.
